O Objeto e o Vínculo: O Que Guarda e o Que Promete uma Aliança? Uma Leitura Psicanalítica dos Laços Amorosos
A interrogação corriqueira sobre adquirir ou recusar uma aliança de namoro transcende a escolha de uma joia ou a mera convenção social: ela convoca o sujeito a confrontar a natureza do compromisso amoroso, a angústia da incerteza e a fantasia inconsciente de assegurar a permanência do outro através da matéria.
O Objeto Material e a Ilusão de Garantia
Na vida amorosa contemporânea, dilemas aparentemente práticos — como a decisão de trocar ou não anéis no namoro — frequentemente despertam impasses desproporcionais, desentendimentos silenciosos ou cobranças carregadas de ansiedade. O que confere a um círculo de prata ou ouro o poder de mobilizar afetos tão intensos?
Para a psicanálise, nenhum objeto humano é puramente funcional. Ele é sempre investido pela libido e atravessado pela fantasia. No campo do amor, a aliança opera primordialmente como uma tentativa de dar contorno visível e palpável àquilo que, por definição, é fugidio, imponderável e faltante: o desejo e a fidelidade do outro.
Diante do desamparo fundamental que o laço afetivo impõe — uma vez que amar significa abrir mão da autossuficiência e colocar-se em risco diante da alteridade —, o sujeito busca âncoras no mundo material. O anel surge na fantasia como um anteparo protetor, uma promessa petrificada capaz de suspender o tempo e calar a dúvida: "se ele carrega este metal, ele me pertence e está garantido".
A Angústia Diante da Alteridade e a Demarcação de Território
Jacques Lacan formulou uma das mais célebres definições do amor analítico ao afirmar que "o amor é dar o que não se tem a alguém que não o é". Isso implica admitir que a parceria amorosa não é a fusão de metades complementares, mas o encontro entre dois sujeitos marcados pela falta.
Contudo, tolerar a incompletude do parceiro é uma tarefa psíquica árdua. Quando a angústia de perda ou o fantasma da rejeição se tornam intoleráveis, o objeto material pode ser convocado não para celebrar um encontro, mas para exercer uma função defensiva de demarcação.
Em muitos casos que chegam à clínica, o pedido imperioso pela aliança esconde a urgência de enviar uma mensagem ao olhar de terceiros — tornar pública uma posse imaginária para afastar potenciais rivais — e de apaziguar uma desconfiança interna que nenhuma joia é capaz de curar. O anel é alçado à categoria de fetiche: espera-se que o metal produza a fidelidade que a palavra e o laço ainda não conseguiram sustentar.
"O laço amoroso só pode se sustentar quando há espaço para a distância entre dois seres. Quando o símbolo material pretende abolir essa distância, ele deixa de ser celebração e passa a ser amarra imaginária."
— Donald W. Winnicott, O Brincar e a Realidade (1971)
O Fetiche do Compromisso versus o Pacto Simbólico
É essencial distinguir o registro imaginário do registro simbólico na vida a dois:
- O Registro Imaginário: onde o anel funciona como um talismã garantidor. Nele vigora a crença de que o ritual exterior dispensa o trabalho diário da escuta, da negociação do afeto e do enfrentamento das diferenças;
- O Registro Simbólico: onde a aliança é compreendida como uma metáfora legítima de um pacto ético previamente tecido e constantemente sustentado na palavra e no cuidado mútuo.
Quando a relação se sustenta no campo simbólico, comprar uma aliança não é uma exigência desesperada nem um teste de lealdade; é simplesmente a partilha de uma marca poética de cuidado. Por outro lado, quando o pacto simbólico está fragilizado, a cobrança pelo anel converte-se em sintoma: reclama-se o símbolo exatamente onde a substância da relação parece vacilar.
A Hesitação, a Recusa e o Fantasma da Invasão
Do outro lado da questão, a recusa ou a hesitação diante do uso de uma aliança também merece ser escutada em sua singularidade. Enquanto um parceiro pode interpretar a relutância como desamor ou falta de compromisso, o psiquismo de quem recusa pode estar lidando com fantasias inconscientes muito distintas:
- O medo da perda de autonomia: em personalidades cuja individuação foi conquistada a duras penas, submeter-se a um símbolo convencional pode reavivar o fantasma da invasão materna ou paterna na infância;
- A aversão ao olhar institucional: a recusa em enquadrar o relacionamento nos moldes sociais herdados da família de origem;
- A angústia de castração e aprisionamento: a fantasia de que aceitar o compromisso formal selaria o fim da liberdade de desejar.
Percebe-se, portanto, que o embate entre "comprar ou não comprar" não opõe quem ama contra quem não ama. Com frequência, opõe duas maneiras distintas de lidar com o desamparo e com o limite do próprio Eu.
A Escuta Psicanalítica nas Crises Amorosas
Na clínica psicanalítica, o terapeuta não desempenha o papel de conselheiro marital nem emite julgamentos sobre etiqueta romântica. O trabalho de análise não visa responder se o casal deve ou não deve adquirir uma aliança.
A escuta analítica intervém para retirar o véu das acusações recíprocas e permitir que cada sujeito formule o que está em jogo para além do objeto material:
- Que garantia inconsciente estou exigindo do meu parceiro ao pedir este símbolo?
- Que ameaça fantasmática sinto despertar em mim quando me pedem para assumi-lo?
- Como posso sustentar meu desejo em relação ao outro sem exigir que ele seja idêntico aos meus ideais infantis?
Ao possibilitar a elaboração dessas perguntas, a análise ajuda os casais a deslocar o conflito da matéria para a fala, libertando o amor da tirania da garantia impossível.
Considerações Finais
A aliança pode ser uma bela testemunha de um encontro, mas não é ela que o inaugura nem ela que o preserva. O verdadeiro vínculo afetivo não repousa no metal circular que circunda o dedo, mas na capacidade de dois sujeitos suportarem a vulnerabilidade do encontro, acolherem a imperfeição um do outro e renovarem, dia após dia, a coragem de desejar.
Referências Bibliográficas
- Freud, S. (1912). Sobre a mais geral degradação da vida amorosa. Obras Completas, Volume 10. São Paulo: Companhia das Letras.
- Freud, S. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. Obras Completas, Volume 12. São Paulo: Companhia das Letras.
- Lacan, J. (1960-1961). O Seminário, livro 8: A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
- Winnicott, D. W. (1971). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora.
- Bauman, Z. (2004). Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
- Kehl, M. R. (2008). Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras.
Diana Jenifer Neves de Camargo
Psicóloga clínica formada pela UFSC (CRP-12/25292), com atuação em psicoterapia de orientação psicanalítica para crianças, adolescentes e adultos na clínica Klein & Koltermann. Especializanda pelo Centro de Estudos Psicodinâmicos de Santa Catarina (CEPSC).